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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Nimbus - Parte I de II




Por: Franz Lima.
A TV anuncia mais uma vítima. Ela está ligada a mais de dois dias, mas sua luz não cessa, parece ter vida própria. Nela, um homem diz que a contagem de corpos já atingiu o número de cinco pessoas. Sem vínculos, sem pistas, apenas um nome: nimbus.
Quantos mais morrerão até que se chegue ao autor desta carnificina? - questiona o âncora do noticiário.
- Quantos? Não sei dizer. O que interessa não é o número, mas a mensagem que deixo. Vou morrer logo, mas meu legado continuará por gerações.
O homem caminha pelo apartamento e olha para a TV. Seu trabalho está sendo bem divulgado, pensa.
Com a voz sussurrada, ele diz:
- Eu sou Nimbus. Eu sou a nuvem que traz a sombra e a brisa, o acalento e a serenidade. Porém também trago a tempestade, o frio e o desalento. Eu carrego a paz e a calamidade em mim. Venho sem avisar e parto ainda mais sorrateiramente.
Então, sorrindo, ele aponta o controle-remoto para a televisão e, com um toque, a silencia. O apartamento é tomado pela escuridão.
- É hora de dormir. - pensa. - Amanhã há muito a fazer. Eles têm que compreender o quanto a dor pode ser intensa, o quanto o medo pode se entrelaçar em suas espinhas. Eles irão me temer e me respeitar... ainda tenho muito a fazer.
Eu adormeço e passo mais de 19 horas dormindo. Não acordo para comer. Meu alimento virá em breve...
Abro os olhos lentamente. Meu quarto está com as janelas fechadas, sujas. Mas ainda assim elas permitem a entrada da luz do letreiro de uma oficina próxima. Nada que me incomode, penso.
Olho para o lado e vejo minha TV, minha velha companheira. Fico parado frente a ela por longos minutos, sem que nada seja dito a meu respeito. Sinto raiva pelo descaso.
          Estico o pescoço, alongando-o. Há dor em meus ossos e minha bexiga dói pelo acúmulo de urina. Fiquei muito tempo deitado, preparando o corpo e o espírito para o que virá. Sei que valerá a pena.
Tomo uma longa ducha quente. O calor da água sempre me revigora, quase tanto quanto o calor do sangue. O banho acaba e atravesso a sala nu, sentindo o frio suave que vem lá de fora, junto com o barulho que insiste em não acabar jamais.
Lá fora, meus olhos contemplam as pessoas que passam. "Em breve, um de vocês morrerá", comento, entre lágrimas.
Fecho metodicamente a janela, lacrando-a com um papelão. O som diminui consideravelmente.
Olho para meu apartamento e fico imaginando o que seria minha vida sem ele. Tantas vezes ele ficou ao meu dispor, pronto a me ouvir e a chorar comigo. Um verdadeiro e leal amigo.
Descalço, ando bem devagar até meu guarda-roupa (odeio esse papo de "closet" e outras frescuras). Abro sua porta e fico longos segundos avaliando minhas roupas. Hoje, não sei se já citei, será um dia especial e, para tanto, preciso de um traje adequado à data. Sem desleixo! - cobro de mim, mentalmente.
Como em um ritual de suicídio, disponho as peças organizadas em minha cama, seguindo a ordem em que pretendo pô-las em meu corpo. Vou desde a camiseta interna, até os sapatos Timberland. Não sou um cara de luxos, porém faço questão de ter os pés confortáveis.
Já arrumado, vou apagando cada lâmpada de cada cômodo. Não desperdiçar sempre foi uma das minhas formas de manter o autocontrole.
Chego à porta, olho atentamente ao que me cerca e, impassível, encosto-a. A chave gira, fazendo um desagradável som de fechadura velha. Tão velha quanto meu espírito, vale ressaltar.
Desço alguns andares a pé. O exercício sempre será salutar, sempre me manterá alerta para minhas atividades. Estar alerta, relembro, é questão de sobrevivência.
Já fora do prédio, respiro um ar poluído e, ao mesmo tempo, cinco mil vezes melhor que o do meu apartamento.
Alguns transeuntes me olham, mas é meu olhar que os acompanha sem medo, louco para lhes mostrar o quanto posso ser gentil... ainda que esteja matando.
Ando por longas horas, sem me preocupar com quem me cerca. A vida dos outros não é nada para mim. Eu não tenho vínculos ou sentimentos com ninguém e, acreditem, isso me facilita demais no que faço.
Conforme ando ou estou parado, percebo pessoas me olhando. Há curiosidade em seus olhares, há desejo, receio, incompreensão, rancor. São tantos os sentimentos emanados, tantas ambições e dúvidas... todos me atingindo a uma só vez.
          Por fim, já abalado por tanto tempo em contato com outros, encontro meu material de trabalho. Vejo uma pessoa, uma mulher magra e triste. Ela não me percebe (e eu gosto disso), está com a cabeça baixa, ostentando um olhar sofrido e vago. Sua face chega a lembrar a minha própria nos momentos de angústia. - Ela não irá mais sofrer, prometo a mim mesmo.
Eu vou acompanhando-a. Nossos passos têm o mesmo ritmo, o que me facilita ficar próximo a ela. Como sempre, não sou detectado. Será uma boa noite...
Acelero o passo e, rapidamente, estou à frente dela. Como das outras vezes, as preocupações dela (similar aos outros alvos) sobrepõem sua atenção ao que lhe acontece ao redor. Eu passo como se fosse um fantasma, sem que ela me notasse.
Quase uns quinhentos metros à frente, paro e começo a pensar no que fazer. Minhas decisões são rápidas e não devem despertar suspeitas. E é isso que faço.
           Quando ela está quase passando por mim, eu acelero e me ponho à frente dela. O restante correu de acordo com as prévias: ela esbarra em mim, eu peço desculpas e pergunto o que posso fazer para compensar.
Inicialmente, a mulher demonstra certo receio por causa da cordialidade excessiva. Mas eu aprendi uma coisa muito importante: todas podem te odiar. Todas elas podem te amar.
Nossos olhares se encontram. Há dúvida e receio em seus olhos castanhos. Mas também posso ver solidão e amor. Ela é um verdadeiro anagrama, uma profusão de letras pedindo para serem reorganizadas.
- Peço desculpas pelo atrevimento – digo, sem que permita a ela desviar o olhar. - Estou com alguns problemas e, para ser sincero, acabei andando pela calçada sem me dar conta das pessoas. Porém, acho que estou sendo um tanto indelicado. Não me apresentei educadamente: sou o Dr. Flavius, seu humilde servo.
Abaixei a cabeça em sinal de mesura, sem desviar nossos olhares. Ela gostou, percebi, do tratamento que estava recebendo. No fim, todas gostam.
- Bem, Doutor, eu agradeço pela gentileza, de verdade. Porém tenho outros deveres e não há tempo para paqueras. Por favor, me deixe passar.
Os olhos dela eram elétricos, contrastando com o resto do corpo visivelmente abatido. O desânimo que ela tinha, o descontentamento, não transparecia em seus olhos. Ali, no brilho deles, eu pude ver o quanto ela era boa. Como a maioria das pessoas. Foi a partir daí que decidi realmente agir.
Compreendo sua pressa e sua desconfiança, Senhora ...?
- Kátia. Meu nome é Kátia, mas ainda não posso ser chamada de senhora. Não sou casada.
- Hum... eu entendo. Não quis ofender, apenas ser cordial - disse, já mais animado pelo desenrolar da conversa. - Que tal, para compensar o inconveniente, uma xícara de café ou chá? Apenas para tirar esta má impressão que deixei.
Kátia me fita, pensativa. Sinto nela uma dúvida muito grande, como se estivesse pondo em votação a decisão a ser tomada. Não esboço qualquer reação, pois sei qual será sua resposta.
- Veja, - ela inicia - não quero namoros, flertes nem nada do gênero. Apenas uma xícara de café, dois minutos de conversa e nunca mais nos veremos. Estes são meus termos.
Eu virei as costas para ela e, em voz alta, disse:
- Seu desejo, minha diretriz. Assim será, então. Vamos?
Apontei a mão direita à frente, em sinal de pedido de passagem. Ela se adiantou e ficou ao meu lado.
- Vamos... mas lembre-se das regras.
- Eu jamais esqueço as regras, Kátia. Elas são os pilares que sustentam minha vida.
        Então, sem mais nada dizer, nos dirigimos a um cyber-café. Para os que nos viam, aparentávamos ser apenas conhecidos, pois não nos tocamos um só segundo. A distância era rigorosa, muito formal. Afinal, o que se poderia esperar de um encontro tão repentino? Beijos?
Entramos para o café. O lugar era muito calmo, apesar da movimentação dos dedos nos teclados dos laptops ao redor. Muitas pessoas plugadas e atentas ao seu mundo particular, ao seu mundo virtual.
Eu puxei uma cadeira para que ela se sentasse. Não houve agradecimentos.
Um homem, na verdade um garoto, se aproximou e disse:
- Desculpem incomodar, mas desejam algo para beber? Já conhecem nossa locadora de DVD e Blu-ray? - questionou, sorrindo de modo simpático.
- Estamos com pressa. Mas pode trazer dois capuccinos. Quer o seu com pouca ou muita canela?
Ela elevou o queixo e respondeu:
- Traga os dois com muita canela.
- Sim, senhora - respondeu o atendente.
Permaneci quieto, enquanto o garoto se afastava e, só então, perguntei a ela como havia descoberto minha predileção no capuccino.
- Veja, - ela começou - sua entonação ao final da frase entregou sua opção. Quando disse pouca, disse com desprezo. Logo, muita canela era a opção correta.
Aproximei meu rosto dela. Havia mais naquele olhar do que aparentava, isto era definitivo. Ela era bem perspicaz, o tipo de vítima que iria trazer muito trabalho. Um desafio...
- Suas conclusões estão corretas. Parabéns. Fico imaginando o que seria capaz de descobrir se nossa pequena amizade se estendesse por mais algumas horas.
- É. Quem sabe o que ocorreria, afinal? - ela respondeu.
Nossa conversa transcorreu normalmente. Ela era perfeita. Um perfil psicológico frágil, mas uma personalidade forte, um verdadeiro enigma... e eu precisava decifrá-lo.
Olhei atentamente para ela e senti algo diferente. Ela me atraía, concluí. Sua simplicidade, sua complexidade, me atraíam muito. Mas isto não lhe impediria de ser minha próxima obra. Ela só estava esperando ser moldada.
(Continua amanhã...)
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