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domingo, 6 de outubro de 2013

Conto: Meu presente amaldiçoado.




Por: Franz Lima.
Hoje completamos 22 anos de brigas. Na verdade, lutamos para tirar a vida um do outro quase que incansavelmente. Entretanto, não foi sempre assim. Houve um período em que éramos irmãos, com pequenas nuances de comportamento, mas gêmeos na essência do significado dessa palavra. 
Isso até o dia em que lhe dei meu presente...


Meu nome é Alex. Tenho 34 anos e estou há quase dois anos lutando ao lado de meu irmão. Ele é um bom homem, um bom pai e amigo. Somos inseparáveis, mesmo que tenhamos nossas pequenas diferenças.
Alan é quase um reflexo de mim. Relembro que os reflexos são uma imagem invertida de nós. Logo, eu e Alan somos verdadeiras antíteses um do outro. Ele é cristão, fervoroso e praticante. Eu... bem, eu sou apenas um cara que quer viver a vida. Não ligo para conceitos religiosos ou dogmas. Ligo para ter um bom período neste planeta, pois acho que é o mínimo que merecemos.
Crescemos como simbiontes. Em algumas ocasiões, um drenava forças e coragem do outro. Eram tempos difícieis, principalmente a infância. Contudo, concluímos que esses tempos seriam ainda piores sem a presença do irmão. Namoramos irmãs (não gêmeas), fumamos nosso primeiro - e último - cigarro de maconha juntos, éramos, enfim, mais do que meros irmãos. Éramos verdadeiramente amigos.
Não tínhamos o sucesso que todos buscam. Empregados, o pouco que recebíamos servia como apoio para continuar a busca por algo melhor, o que não implica em dizer que cobiçávamos fortunas. Viver já era uma grande riqueza.
Então, quase completando 32 anos, Alan entrou em minha casa. Eu o olhei e percebi uma tristeza incomum. Seus olhos estavam sem brilho, opacos como os de um peixe há muito fora da água. A tensão incomodava demais. Ele se sentou no meu velho sofá e disse:
- Estou com câncer. Desculpe o jeito direto para falar, mas não sei o que fazer. Eu quis evitar ao máximo contar, só que não dá. Cara, não sei o que fazer. Pela primeira vez na minha vida, não sei como reagir. Me ajuda?
Alan arriou. O choro era intenso e mostrava a dor pela qual ele passava. Como eu não descobri isso antes? Eu deixei as dúvidas de lado e o abracei. Naquele mesmo dia, Alan e eu ficamos sem reação, sem palavras. Restava apenas o medo.
E foram dois anos de agonia. Vi meu irmão definhar, sofrer, apodrecer. O câncer iria separar o que pensamos jamais poder ser corrompido. Muitos disseram-me para aceitar. O próprio Alan estava convicto de que a morte seria uma benção. Todos insistiam nessas teorias de elevação espiritual pela dor. Mas o que poderia fazer? Aceitar ver meu único irmão morrer entre seus próprios excrementos? Não...
Em uma noite quente e violenta de um sábado carioca, ligaram-me para que eu regressasse ao hospital com urgência. Alan morreria naquela noite.
Dirigi e por várias vezes quase bati. Os olhos estavam embaçados pelo choro e a angústia. Só o ódio me manteve com a serenidade para fazer o que fiz. Só a raiva me deu a força necessária.
Ajoelhei-me diante do leito de morte de meu irmão. Ele recebia doses altas de morfina, o que não minimizava a dor. Suas palavras oscilavam. Não havia coerência no que ele dizia. Dopado, Alan era menos que uma sombra do homem de outrora. Não posso descrever a dor ao ver tamanha tortura.
- Irmão? - chamei-o.
Apenas leves espamos despontavam em suas mãos. Os olhos continuavam cerrados e, ocasionalmente, uma expressão de dor surgia.
- Alan, sou eu, Alex. Cara, fala comigo. - insisti.
Nada. 
Aproximei meu rosto do dele e lhe contei tudo.
- Sabe, apesar de ser o mais velho entre nós, você sempre foi o mais responsável. Não me abandone, por favor. Nós ainda temos muito para viver juntos. Brother, não seja injusto comigo. - disse, já chorando muito.
A morte rondou aquela cama de hospital, ávida por mais uma alma  e eu a odiei como jamais fiz com qualquer outra criatura ou situação.
Eu a olhei e disse:
- Fora! Ninguém vai levar meu único amigo. Isso é covardia. Fora!
Encostei a cabeça em seu peito e já era quase impossível ouvir suas batidas cardíacas.    
- Desculpe pelo que vou fazer, meu grande amigo. Não tenho mais opções...
Eu cortei minha língua e senti o sangue viscoso invadir minha boca. Rapidamente o abracei e lhe dei meu último presente: meu sangue. 
Foi o início de nossa guerra.

Já se passaram mais de duas décadas e ele ainda não me perdoou. Seu ódio pela maldição que lhe transmiti faz com que  sua busca por mim se intensifique. Mas não me arrependo. Eu poderia ter dito tudo a ele antes, poderia ter dado uma chance de escolha, porém eu nunca seria o mesmo sem ele. 
Esse é um breve relato do início de uma das mais longas caçadas entre vampiros que os clãs já registraram. Mesmo novos, nosso ódio tornou-se lendário entre os bebedores de sangue.
Meu irmão me odeia, não nego. E também continua, de certa forma, ao meu lado.
Essa é a ironia da existência de um bebedor de sangue e de seu algoz: o próprio irmão.
  


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