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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Análise da obra "O Grande Ditador", com Charles Chaplin.




Por: Franz Lima


Aviso: apesar de ser um filme com 73 anos, a resenha a seguir contém SPOILERS.
  Quantos filmes, livros e músicas somem com o andar ininterrupto do tempo? Quantas obras são perdidas entre outras centenas de milhões? Quantas são desprezadas e postas em um canto obscuro de um porão qualquer? Muitas, amigos. Muitas.
Ontem eu finalizei a contemplação de uma grande obra que, graças ao Criador, não caiu no fosso do descaso e do esquecimento ou foi destruída. Estou falando de um clássico primoroso da Sétima Arte: O Grande Ditador, filme com o imortal Charles Chaplin.
Essa obra data de 1940, período em que o mundo estava absorto em um de seus maiores conflitos: a Segunda Guerra Mundial. Sob a sombra do ditador Adolf Hitler, milhões dormiam com medo de jamais acordarem. Era uma época de caos, temor e morte. Chaplin, visionário e consciente do que poderia vir, lançou esse filme com um conteúdo extremamente crítico, ainda que haja também uma boa dose de humor. O Grande Ditador foi seu primeiro filme falado e, acreditem, o mais marcante de sua carreira. 


Sobre o filme:

O Grande Ditador (The great dictator) é fruto direto da mente de Charles Chaplin que não só atuou  como também produziu, roteirizou e dirigiu o filme. 
A obra é uma clara crítica ao regime nazista e seu principal elemento, Adolf Hitler. Entretanto, também há uma participação de um satírico Mussolini, no filme retratado como Benzino Napaloni. 
A trama inicia-se em 1918, por ocasião da Primeira Grande Guerra quando um soldado alemão, de ascendência judaica, salva um aviador e, durante o resgaste, sofre um acidente que o mantém em amnésia por 20 anos. 
Quando sai do hospital, o ex-soldado não tem sua memória ainda recuperada e em sua loja (ele é um barbeiro de profissão) encontra uma realidade dominada por um regime ditatorial que prega a segregação dos judeus. O barbeiro conhece uma mulher que o acompanha durante toda a trama, a bela Hannah (esposa de Chaplin à época). Hannah é a força que não se curva diante dos perseguidores, uma mulher com coragem e dignidade suficientes para afrontar um poder contra o qual ela não tem chances. 
Na condição de judeus, o barbeiro, Hannah e todos os moradores do Ghetto são perseguidos pelos soldados da Dupla Cruz.
A tentativa de retomar sua rotina não dá certo, pois o barbeiro é sempre perseguido pelos soldados que ganham fúria quando o judeu reage às suas agressões. Finalmente, a violência culmina com a tentativa de assassinato (enforcamento em praça pública) do barbeiro, que é salvo por aquele a quem ele ajudou muitos anos atrás. Agora na condição de Comandante, Schultz, o aviador, declara que não deverão mais ocorrer agressões aos moradores do Ghetto.
A paz dura pouco e a trama acaba recaindo não só na perseguição ainda mais violenta aos judeus como também na decisão de invadir um país. De forma caricata, porém coerente, Chaplin mostra um homem atormentado pelo poder e pelas pessoas que o influenciam. Tal como Hitler, Heynkel é um indivíduo que faz do poder uma arma com a qual suas aspirações e loucuras são impostas. 

Os Judeus:

O filme de Chaplin tem um ponto bastante positivo: a não-caracterização dos judeus como pessoas que valorizam mais o dinheiro que a própria individualidade. Sem esses estereótipos, ficou  simples sentir uma pequena parcela do sofrimento desse povo, dessas pessoas. Mais do que um povo perseguido, eles são retratados como pessoas que tem sua individualidade, seus defeitos e predicados, humanos como quaisquer outros. A mensagem final é de tolerância e respeito pelas diferenças culturais e raciais.

Liberdade?

Aspectos históricos presentes no longa-metragem:

Hermann Goering
Joseph Goebells
Pude contemplar grandes citações aos acontecimentos históricos da época. As perseguições, execuções públicas, o perfil controverso de Hitler e a índole megalomaníaca de Mussolini,as apropriações indevidas durante a guerra, os abusos e a influência da oratória de um único homem sobre toda uma nação. Além disso, a ambientação - mesmo que suavizada - mostra alguns aspectos interessantes do Ghetto (o reduto judeu) e da arquitetura tanto admirada por Hitler e concretizada pela mente de Albert Speer. Cabe citar também a presença dos temidos Campos de Concentração, onde, acertadamente, Charles Chaplin apresenta como um campo de trabalho, visto que os extermínios ainda eram algo pouco praticado.

A genial adaptação da suástica pela dupla-cruz também merece destaque. 
A presença de judeus fugitivos em porões lembram a opressão sofrida pela jovem Anne Frank, porém é bom ater-se ao fato de que o filme é anterior à descoberta do diário.
Os ministros Garbitsch (Henry Daniell) e Herring (Billy Gilbert) são as versões, respectivamente, de Joseph Goebells e Hermann Goering. Schultz representa os alemães que não concordam com a doutrina excludente, opressiva e mortal de Hitler.

Duelo de egos:

Reparem na ênfase dada pelo ator/diretor ao encontro entre Hynkel e Napaloni. O descaso de um e o temor do outro são alçados de forma satírica, o que leva o espectador a refletir sobre a fragilidade presente até no mais cruel dos humanos. Hitler e Mussolini tinham um relacionamento pautado no temor e respeito de um diante do outro, fato que levou-os a firmar a aliança entre seus países.
A cena onde Hynkel brinca com um globo terrestre ilustra brilhantemente a sede de poder de um ditador no nível do nazista.   
 

O Discurso final:

O vídeo abaixo é um extrato da parte final do filme onde o Grande Ditador faz um discurso acalorado em prol da liberdade e igualdade entre os povos. Substituído pelo barbeiro, o falso Hynkel proclama um dos  mais belos discursos que o cinema tem em sua história. É o ponto final de uma obra que inclui humor e história com uma narrativa crítica, ácida e realista sobre os efeitos negativos do poder e da ganância sobre o caráter humano. 
P.S.: não atentem para o fato de que o barbeiro e Hynkel serem quase gêmeos e isso só ter sido usado no final da obra. O que importa é o resultado final, a crítica aos tiranos e seus regimes que, inclusive, pode ser usado até hoje (direcionado a todos os loucos que detém o poder, mesmo os que vivem sob um regime democrático).

Transcrição do discurso ao final de 'O Grande Ditador':

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos! ( segue o estrondoso aplauso da multidão ).

Então, dirige-se a Hannah :

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!."
 
Elenco do filme:

Charles Chaplin - Adenoid Hynkel / Barbeiro judeu
Paulette Goddard - Hannah
Jack Oakie - Benzino Napaloni
Reginald Gardiner - Comandante Schultz
Henry Daniell - Garbitsch
Billy Gilbert - Marechal Herring
Grace Hayle - Madame Napaloni
Carter DeHaven - Spook (embaixador bacteriano)
Maurice Moscovitch
- Sr. Jaeckel
Emma Dunn - Sra. Jaeckel
Bernard Gorcey - Sr. Mann
Paul Weigel - Sr. Agar



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2 comentários:

  1. O top desse filme, para mim, é o fato de que Hynkel e o barbeiro são a mesma pessoa; isso mostra que o mais ganancioso dos homens ainda é um homem como todos os outros. Tão forte quanto, tão frágil quanto e tão pretensioso quanto.

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    Respostas
    1. COMO ENGANAR E TORNAR O MUNDO COMUNISTA - A MESSAGE FOR ALL OF HUMANITY POR CHARLIE CHAPLIN ONDE SE LÊ DEMOCRACIA QUER DIZER COMUNISMO
      http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com/2014/07/como-enganar-e-tornar-o-mundo-comunista.html

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