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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Conto de Halloween: Em meu leito. Por Franz Lima.




Para comemorar este dia pagão, um conto sombrio, mas com uma mensagem para todos. Tema sobrenatural, porém não enquadro como terror. Espero que gostem e comentem...
 
Autor: Franz Lima
Em meu leito
 
Tortura. Talvez esta seja a única palavra capaz de definir o que se tornou meu viver. Cada novo dia é um tormento inenarrável pelo qual tenho que passar.
Por que deixam que isto ocorra comigo? Pena e compaixão são justificativas plausíveis para me manterem inerte, praticamente morto, sujeito a seus caprichos e vontades, mesmo com boas intenções?
Sou incapaz de ter qualquer sensação, exceto a de ouvir. Sequer sei se já descobriram que estou cego, isento da maravilhosa benção de distinguir cores e formatos. Minhas visões são apenas turvas lembranças do passado.
Sereno e repleto de coisas boas, este seria o real retrospecto do que vivi.
Agora, tudo isso se foi, apesar dos esforços para trazê-los novamente.
Tenho pena de vocês que sofrem ao compartilhar comigo minhas dores. Gostaria de poder dizer-lhes o quanto isto é inútil.
Tê-los, dia a dia, lutando em prol de meu restabelecimento é maravilhoso, mas será que não percebem que jamais serei de vocês outra vez?
Cuidam de uma casca que apenas pensa. Sou incapaz de esboçar um sorriso ou deixar uma lágrima rolar de meus olhos. Acho que me tornei uma espécie de ornamento que necessita de constantes cuidados, uma peça que não pode empoeirar-se.
Fico feliz ao ouvi-los dizer o quanto me amam e de suas saudades. Isso, contudo, não é suficiente. Nosso convívio não poderá eternamente limitar-se aos cuidados dos familiares com o infeliz em coma, estático.
Resolvo partir. Vocês não percebem de início, porém vou decaindo gradativamente. Meu corpo já não consegue sintetizar os nutrientes e, por isso, definha.
Irei, mesmo sabendo o quanto amam este invólucro sem funções. Foi ótimo ter tanto tempo a refletir e perceber que seus sentimentos são puros e verdadeiros.
Penso em todo este tempo ao lado de vocês e o vejo como um presente de Deus, uma forma de mostrar-me, antes de partir, que realmente me valoriza.
Assim, de forma calma, vou sentindo o coração retardar-se, diminuir seu ritmo lenta e progressivamente, como se estivesse reservando-me os últimos instantes ao lado dos que amo.
As batidas cessam e sinto-me leve, quase a flutuar. Posso vê-los novamente e sinto-os tristes, porém confiantes em meu novo destino. Sei que serão felizes e posso garantir-lhes que também serei. Jamais esquecerei o quanto foram bons para mim e estarei sempre próximo a vocês, no coração de cada um.
Não chorem por meu corpo em seu leito.
Meu espírito repousa em paz e reza por vocês.
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2 comentários:

  1. Ótimo . Conseguiu passar toda a sensação de perda que o personagem está sentindo,podemos sentir ele definhando aos poucos.
    E ainda nos faz pensar,nessa situação o que seria melhor ?O Que você faria se fosse alguém da família do personagem e soubesse o que se passa em sua mente ?
    Enfim parabéns pela eficiência com a qual fez tudo.

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    Respostas
    1. Guilberth, muito obrigado pelo comentário. Sempre que escrevo, procuro me situar no lugar da personagem, algo muito próximo ao que faz um ator de alto nível, e alcançar o máximo de realismo.
      Espero que esteja sempre presente ao Apogeu e tenha muito sucesso em sua carreira como escritor.
      Keep walking...

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