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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Qual o problema em ouvir Legião Urbana?




Uma das coisas mais estranhas que tenho acompanhado nos ultimos anos é a involução do pensamento e do comportamento humanos. Modismos surgem com a velocidade do pensamento e, tal como surgiram, também desaparecem rapidamente.
Meus ídolos são mais consistentes. Frutos de uma geração que divulgou e ainda propaga o que gosta, bandas como Legião Urbana, Kid Abelha, Paralamas, Titãs e muitas outras se perpetuaram pelo tempo. Não são passageiras, pois mostraram competência para ultrapassar gerações e as complexidades e diferenças provocadas pelas diferentes faixas etárias e pensamentos. Claro, o fato de serem grupos longevos não é sinônimo de uma história isenta de problemas e polêmicas. São, acima de tudo, uma reunião de pessoas que não podem deixar de viver suas vidas e, como qualquer um de nós, cometer acertos e erros.
Preciso frisar que o fato de haver bandas, músicos, literatos ou artistas que são competentes a ponto de ultrapassar a passagem dos anos não implica em dizer que as atuais vertentes culturais sejam ruins. Há muitos exemplos de ótimos representantes da música, cinema, quadrinhos, literatura, teatro e todas as outras formas de expressão cultural de altíssimo nível. Entretanto, o que não há como negar é que, mesmo com muitos ótimos exemplos, os péssimos ou medíocres pseudo-artistas são maioria.
Bem, ruins ou ótimos, quem trabalha com cultura e entretenimento tem seu valor. Ouvir uma música clássica é bom para quem gosta deste tipo de música. Curtir um funk é igualmente bom para os apaixonados pelo ritmo. O fato é que cada um tem seu valor dentro de um certo "nicho". Não há unanimidade...
Então, vocês devem estar se questionando sobre o motivo dessa explanação sobre qualidade de entretenimento, certo? Simples... não me importa o quanto ruim possa ser a música que estou ouvindo (e não é ruim) para outra pessoa. Eu não uso uma caixa de som presa à roupa para divulgar o que ouço. Quando comprei um headphone eu, mesquinhamente, tomei a decisão de ouvir sozinho minhas - minhas, volto a frisar - músicas. Sabem o motivo para tal? Quis evitar apenas comentários babacas sobre algo que gosto. Mas...
Fonte da foto e caricatura: Bruno Comotti
Agora chegarei ao ponto que gerou este post. Um belo dia, numa terra muito, muito distante, eu ia calmamente em direção ao meu trabalho. Manhã de sol, céu claro e eu de óculos escuros caminhando tranquilo em direção ao local que gera o numerário para pagar minhas contas. Em meus ouvidos headphones tocavam "Metal contra as nuvens", da Legião Urbana. Como ponto de apoio para esta história, sou um cara que cresceu ouvindo a banda e, logicamente, aprendi a amar até as fases mais medonhas de Renato Russo e cia. Quem, eu pergunto, da minha geração não curte esse grupo? As letras são poesias - sim, algumas depressivas - e arte em estado puro. Não há desperdício de seu tempo ao ouvir e pensar sobre as músicas da Legião Urbana, eu garanto.
Foi aí que começou o tumulto. Fui abordado por um amigo que falava ferozmente. Sabe o tipo de pessoa que diz "foda-se se ele está com um fone de ouvido. Eu quero é falar...". Esse é o sujeito que me abordou. Ok, mesmo não mostrando muito interesse, o brother falava e, acreditem, superou o som alto que eu ouvia. Assim, derrotado pela persistência, tirei os fones e comecei a dialogar com o amigo. Em um ímpeto de curiosidade, o amigo diz: "e aí, fera, está ouvindo o que?". Eu, respondi prontamente: Legião Urbana. O cara me olhou, esboçou um leve sorriso e ficou em silêncio.
Andamos até o local de trabalho em si. Lá, ainda em silêncio, o cara voltou a me olhar de um jeito debochado. Como não sou de guardar questionamente, perguntei o que estava acontecendo. Eis a resposta:
- Cara, não leva a mal, mas ouvir Legião não é coisa de sujeito sério. O vocalista era uma bichona...
Pôrra, não basta o cara me interromper a música, falar um milhão e meio de abobrinhas, ele ainda fecha a tampa do caixão com um comentário podre como esse? Não dá para deixar passar uma oportunidade como essa...
- Amigo, deixe-me entender uma coisa. Você tá criticando um dos melhores grupos de Rock do país em função do vocalista ser gay? E desde quando o padrão do som caiu ou aumentou em função da opção sexual de quem o faz? Na boa, não tem o que falar, é melhor ficar quieto.
Ele rebate com um pouco de raiva: - Mas o cara não era viado mesmo?
- Viado? - reflito. Véio, o que ele fazia consigo era problema exclusivo dele. Eu nunca ouvi falar que o Renato Russo tivesse forçado alguém a dormir com ele ou a usar drogas ou o que quer que seja. Irmão, alguma atitude dele levou a banda à falência? Quando as pessoas cantam em um videokê uma música deles, é obrigatório rebolar e desmunhecar? Na moral, irmão, argumento fraco o seu, além de um comentário podreira que não muda em nada a trajetória de uma lenda da nossa música.
O "amigo" me olhou com um novo riso babaca na cara, mostrando um certo ar de desprezo por eu defender a banda. Olhei para o indivíduo e calei. Uma mente idiota como aquela não iria render um bom debate, apenas uma boa sessão de porrada, ao final das contas.
Peguei minhas coisas e fui para minha seção. Não estou chateado com a discussão infrutífera - da parte dele -, mas me aborreci com uma atitude preconceituosa e imbecil, motivada por uma mente pequena e corrosiva, capaz de esquecer a qualidade de uma vida de sucessos, apenas em prol de um preconceito e um ódio latentes.
P.S.: ao amigo que resolveu criticar meu gosto musical, deixo um simples lembrete... "você irá dispensar a bolsa de sangue que irá receber e salvar sua vida, a única existente, caso ela tenha sido doada por um gay? Duvido. A vida é um círculo sem fim onde não escolhemos entre 0 e 1. Estamos aqui para aprender e, dentro do meu entendimento, eu aprendi muito com a Legião Urbana.

Agora, aproveitem e vejam esse ótimo vídeo feito com base na música "Eduardo e Mônica", um clássico da Legião Urbana.





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3 comentários:

  1. Ao ler estas linhas logo me veio à mente duas das melhores músicas escritas por Renato Russo: "Que País é Esse" e "Perfeição".

    Vale ainda a pergunta: "Que País é Esse?" Será que o que acontece em Brasília não tem a ver com o que acontece em torno de nós?

    Essa é apenas uma amostra de quanto há de preconceito em nossa sociedade, e até de uma maneira leve. Todos os dias acompanhamos casos escabrosos de violência. Violência contra as mulheres. Violência contra os animais. Violência contra idosos e crianças. Violência contra homossexuais. Violência contra moradores de rua. Bullying. Assédio moral, assédio sexual, e até mesmo, as piores atitudes por parte de quem nos deveria defender e trabalhar pelo nosso bem estar (agressões de policiais e abuso de autoridade).

    Que tipo de mundo estamos construindo? De desconfiança, de ódio, de estranhamento, de pessoas que não tem o mínimo respeito pelas outras, e mesmo por si mesmas, que não sabem agir como cidadãos. Isso é um Estado de Direito? Isso é uma democracia? Desse jeito onde vamos parar? E onde falhamos?

    "Vamos celebrar a fome
    Não ter a quem ouvir
    Não se ter a quem amar
    Vamos alimentar o que é maldade
    Vamos machucar o coração..."

    Às vezes lembro que nossas escolas ensinam ou tentam ensinar português, matemática, ciências, e deixam de lado o essencial: valores, respeito, disciplina, responsabilidade, e principalmente, humanidade. Do mesmo modo, falham pais e famílias despreparadas, e nós mesmos, quando agimos sem medir as conseqüências, porque também somos exemplo para os outros.

    Falhamos, estamos falhando. Precisamos corrigir isso. Não com prisões, porque aí já será tarde. Mas com cultura, combate ao preconceito, uma nova mentalidade com novas atitudes. Agradeço seu post, é uma boa contribuição nesse sentido.

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    Respostas
    1. Os agradecimentos são meus, Eduardo. Ainda chegará o dia em que a mentalidade humana será menos mesquinha e preconceituosa. E enquanto esse dia não chega, lutemos para minimizar os efeitos devastadores de comentários e atitudes que depreciam vivos e mortos. Parabéns pelo comentário de altíssimo nível.
      Grande abraço...

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  2. M.Eduardo falou tudo parabéns...

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