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segunda-feira, 2 de abril de 2012

ONG italiana condena a "Divina Comédia" por ser discriminatória e ofensiva




Fonte: Folha de SP

Abandonem toda esperança, vós que aqui entrais: o clássico medieval "A Divina Comédia", de Dante Alighieri, foi condenado como sendo racista, antissemita e islamofóbico por um grupo que pede sua retirada dos currículos escolares.
Escrito no século 14, o poema épico é dividido em três partes e relata a jornada do poeta pelo inferno, purgatório e paraíso. O texto é visto como uma das obras fundamentais da literatura mundial.
Mas a organização italiana de defesa dos direitos humanos Gherush92, que presta assessoria a organismos da ONU em questões de direitos humanos, quer que ele seja retirado dos currículos escolares ou, pelo menos, usado com mais cautela, porque é "ofensivo e discriminatório" e porque os jovens não disporiam dos "filtros" necessários para compreendê-lo em seu contexto. 
A Gherush92 apontou alguns cantos particulares da obra-prima de Dante como sendo merecedores de críticas: o 34º canto do "Inferno", que fala de Judas sendo mastigado incessantemente pelos dentes de Lúcifer, e o 28º, em que Maomé é descrito sendo rasgado "do queixo para baixo, até a parte que emite o som mais vil", além do canto 26 do "Purgatório", que mostra homossexuais sob uma chuva de fogo. A obra, diz a entidade, difama o povo judeu, retrata o islã como heresia e é homofóbica.
"Não propomos a censura ou a queima do texto, mas gostaríamos que a presença de conteúdos racistas, islamofóbicos e antissemitas na 'Divina Comédia' fosse reconhecida de modo claro e inequívoco", disse Valentina Sereni, presidente da Gherush92, à agência de notícias Adnkronos. "A arte não pode estar acima das críticas."
O mundo cultural da Itália, no entanto, reagiu rapidamente em defesa de uma das obras mais famosas do país. "Os benefícios a serem ganhos com a leitura e o estudo da 'Divina Comédia' são tantos que declarações deste tipo são simplesmente absurdas", declarou à agência de notícias o poeta e crítico literário Maurizio Cucchi.
O historiador literário, crítico e autor Giulio Ferroni descreveu as declarações como "mais um frenesi de correção política somado a uma falta absoluta de senso histórico" e disse que "A Divina Comédia" precisa ser lida em seu contexto histórico. "Poderiam ser incluídas mais algumas notas, mas seria uma insensatez abandonar o estudo de uma obra-prima que ajudou a construir a imagem da humanidade."

Tradução de CLARA ALLAIN.

Franz Lima says: "O contexto histórico da época em que o livro foi escrito é infinitamente diferente do que temos hoje. Mulheres eram tratadas com escárnio e ainda eram vistas como fonte de prazer, mães e trabalhadoras domésticas. Os mais ricos tinham  privilégios "comprados" por suas fortunas; a igreja  estava ainda com muita força política e, assim, o que ela determinava como sacrílega, certamente o seria. Comportamentos incondizentes com o período eram abertamente discriminados e perseguidos (fato que até pouco tempo ocorreu em muitos países, inclusive no dito mais democrático dos países - os EUA). Enfim, não há como julgar um livro, até hoje referência da literatura mundial, por exemplificar e usar costumes da época em que foi escrito. A sociedade era cristã, homofóbica, discriminadora em relação à mulher, escravagista em alguns países e com uma grande maioria de analfabetos. Eram tempos difícieis e diferentes que influenciaram o autor e sua obra, mas que nem por isso desmerecem os valores histórico e literário da Divina Comédia. O livro precisa ser lido com a mente consciente de que tudo era diferente da atual realidade, principalmente os valores morais e religiosos, porém nada que desmereça esta obra-prima da literatura.


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5 comentários:

  1. Quando a gente pensa que já viu o nível máximo do quão retardadas podem ser as pessoas... pqp, esse livro é uma obra-prima, um retrato do pensamento de séculos atrás. Temos apenas que saboreá-lo por sua riqueza e beleza, sem procurar utilizá-lo com guia moral - e isso vale para todos os livros. TODOS. Até AQUELE livro...

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    1. Aquele livro - A Bíblia - também tem referências sinistras, dogmas que assustariam até o mais sanguinário dos Serial Killers e ainda assim traz, na essência, uma ótima lição. Aos desocupados que "crucificaram" a Divina Comédia, parabéns por nada. Creio que imaginaram que essas palavras seriam lançadas, o livro queimado e todos ficariam em silêncio: ENGANARAM-SE. Qualquer amante da literatura e, principalmente, da obra de Dante, jamais irá aceitar pacificamente um absurdo como esse.

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  2. Se é proibido proibir, como fica agora o meu desejo de proibir na face da Terra a existência de ONGs que se ocupam em gastar tempo com esse tipo de pensamento? Quisera mandá-los para o quinto circulo do inferno...

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    1. Homi, esse tipo de gente não tem muito o que fazer e, para variar, tem que justificar sua existência desviando a atenção para outra coisa qualquer, preferencialmente polêmica.

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  3. Esse livro apenas mostra a realidade que a Igreja Católica do Século 14 passava, a humanidade tinha esses pensamentos, então por que apagá-los? Idiotísse a ideia dessa ONG

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