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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Novo conto: A benção da morte





Eu sei que ela existe. Não do modo como as pessoas pensam. Não a mitológica figura com a foice e sua capa negra, ceifando vidas e conduzindo os mortos ao limbo. Definitivamente, ela existe. E para ser mais sincero, acho que a palavra “ela”, não se aplica. Não há sexo entre os anjos. Com certeza não há.
Desde pequeno eu persigo a oportunidade de vê-la. Minha avó sempre dizia que aqueles que viam a morte frente a frente estavam destinados a receber seu abraço e, com isso, findar sua existência. Porém, o que mais me chamava a atenção era que, segundo as lendas, o homem que a visse ceifando uma vida, no exato momento do toque fatal, receberia o dom da imortalidade. Seria como se a morte se tornasse o seu anjo da guarda, impedindo o mal de se aproximar de você. Interessante, não?
Assim, movido por esse desejo, tornei-me repórter fotográfico de um grande jornal do Rio de Janeiro. Dizer que já presenciei inúmeras mortes, como profissional, torna-se irrelevante, já que sou repórter policial. Retratar a desgraça e a morte é meu passatempo. Não é um obrigação... é um prazer.
Anos se passaram desde meu início como fotógrafo. Sempre busquei estar nos lugares onde o caos reinava. Neles, eu teria a oportunidade buscada desde menino. A oportunidade de encarar a morte nos olhos. A chance de encarar o anjo da morte no instante em que cumpre sua missão. Não havia outro meio de me tornar imortal... e meu tempo estava passando. A cada novo dia, o abraço se aproxima. O beijo da morte se torna mais tangível.
Eu não quero morrer...
Foi em uma manhã de quinta-feira em que encontrei o prêmio máximo.
Fui convocado para fotografar o incêndio de um grande prédio. As chamas estavam desde o 22º andar até o 30º, restando apenas mais dois andares como local de segurança para as pessoas acuadas. Já haviam relatado 21 suicídios de pessoas que pularam com medo das chamas. Era uma verdadeira tragédia. Era a minha oportunidade, a minha grande chance.
Cheguei ao local com um frio na barriga.
Uma sensação de êxtase, de ansiedade. Eu sabia que algo de bom iria acontecer comigo. Havia certeza de sucesso no ar.
Com a máquina fotográfica em mãos, iniciei minha seqüência de fotos. Eu conseguia captar as faces horrorizadas das pessoas nas janelas, acuadas pela fumaça e pelo fogo. Com o zoom da máquina, eu podia ver suas expressões de dor. “A fumaça traz tanto calor quanto o fogo”, comentou um bombeiro próximo a mim.
De uma das janelas, uma mulher gritava. Aproximei seu rosto e fui tomado pelo horror quando vi sua face direita tomada por bolhas. As queimaduras estavam provocando uma dor inimaginável nela. As lágrimas eram sua única forma de refrescar o ardor das chamas.
Não tirei mais o foco dela. Algo me dizia que ali estava para acontecer algo surpreendente. Ali estava minha oportunidade.
E eu estava certo...
No momento em que a mulher não mais suportou o calor, ela se desprendeu do beiral da janela. Eu e centenas de pessoas paralisamos os batimentos cardíacos enquanto o corpo caia. Era possível ver as chamas na saia da mulher.
O tempo decorrido até ela atingir o chão foi de poucos segundo, mas a sensação era de que horas estavam se passando até o impacto. Durante a queda, com a câmera, fui acompanhando e fotografando cada instante. Seis fotos eram batidas por segundo, lotando o cartão de memória. Em um destes instantes, antes do choque, eu vislumbrei. Meus olhos não acreditaram no que viam. Uma criatura caía junto à mulher. E antes dela bater, as mãos desta criatura tocaram o peito da suicida. Naquele instante, eu sabia que ela já estava morta. Naquele instante eu encarei a profundidade do olhar da morte durante a concretização de sua tarefa na Terra. Naquele instante eu ganhei o dom da imortalidade, há tanto tempo buscado.
A par do que aconteceu, o anjo da morte se aproxima de mim. Eu recuo, olhando assustado para o lado e constatando, infelizmente, que os outros não viam aquela cena assustadora. Tropecei e cai de costas. Minhas mãos tremiam e a câmera jazia no chão, com a lente partida. As pessoas olhavam para mim sem entender o que ocorria.
Tomado pelo medo, fechei os olhos, esperando o meu fim. Mas a única coisa que ocorreu foi um sussurro. Uma voz sepulcral ditou as seguintes palavras para mim: “agora que tem o que tanto desejou, espero que não se arrependa. Viva com sabedoria, mas jamais implore minha chegada. Ela não virá”.
E desmaiei...
Despertei em um leito de hospital. Meu quadro, segundo o médico, era estável. Aparentemente, eu havia tido uma parada respiratória. Mas o problema foi contornado com eficiência. Nenhuma seqüela. Nenhum problema adicional.
Sai algumas horas após. E, deste dia em diante, nada mais me afetou.
Escapei de acidentes incríveis, totalmente ileso. Nunca mais peguei sequer um resfriado. Eu era praticamente indestrutível.
Tomado por essa consciência, resolvi aproveitar meu tempo para viajar e conhecer novas culturas e povos. Eu tinha sede de registrar o mundo através de minha lente. Eu queria adquirir conhecimento, pois tinha tempo mais do que suficiente para tal empreitada.
E assim fiz. Rodei o mundo. Conheci pessoas que jamais sonhei. Vi coisas que a maioria da população do mundo nunca verá. E, desta forma, mais dez anos se passaram.
Eu não sei bem o que aconteceu. Mas a verdade é que numa manhã de domingo, após passar a noite inteira nas ruas francesas, despertei e me deparei com uma verdade: eu estava envelhecendo.
Minha mente girou e senti os olhos tremerem nas órbitas. Algo estava muito errado. Como seria possível envelhecer se eu era imortal? Eu cheguei a pensar que estava tendo ilusões, mas havia fios brancos em minha cabeça e as rugas já ganhavam seus contornos. Realmente estava envelhecendo.
Mas o que teria me cegado durante este tempo todo para que eu não percebesse? Será que eu estava tão entorpecido pela ganância de conhecimento a ponto de não perceber o tempo?
Olhei novamente para o espelho e, involuntariamente, ergui o braço e soquei o vidro, quebrando-o. Apenas um pequeno filete de sangue desceu pela minha mão. Nada mais.
Horas mais tarde, em uma pequena praça, parei para pensar no que estava acontecendo. Será que fui enganado pela morte e eu iria morrer como todos os outros?
Senti minha os cabelos na nuca se eriçarem quando uma voz soou bem atrás de mim, dizendo: “Eu não minto... mas você deveria ter lido as entrelinhas do contrato, humano. Acaso lhe prometi juventude eterna?”. E a voz se foi com um sonoro riso.
E por longos anos este riso ecoou dentro de mim.
Hoje, mais de setenta anos após, ainda me encontro vivo. Angariei uma enorme fortuna. Eu tive tempo para isso. E é graças a esta fortuna, que me mantenho protegido.
Hoje, estou em um leito hospitalar. Não me restam forças e uma equipe médica toma conta de mim. Não tive coragem de ter filhos. Eu não suportaria vê-los definhar enquanto o tempo não daria cabo de minha vida. Seria dor demais para uma só pessoa.
Estou com o corpo frágil. Velho, não posso mais gerenciar minha própria vida. Estou confinado a uma cama. E nela, todos os dias eu clamo por piedade. Todos os dias eu chamo pelo anjo da morte... peço que me silencie e me dê descanso. Tudo em vão.
Várias tentativas de eutanásia foram realizadas sem sucesso. Eu não tenho permissão para morrer, porém não posso viver neste corpo vegetativo. Meus ossos são frágeis, minha língua mal sente os sabores. Meus dentes há muito se foram. Sou um velho senil, à beira da morte... a mesma morte que me rejeita. Meu único amor se foi há longa data. Em meus braços eu vi o anjo tocá-la e partir com sua alma. Mas porquê ele não foi piedoso e me levou junto???
Com lágrimas, tento mover os ombros, mas sou tomado pela dor. Com lágrimas, a consciência dos anos que ainda virão me atormentam. Gostaria de poder voltar no tempo e corrigir o maior erro de minha vida: a vontade de prolongá-la indefinidamente.
Eu quero apenas morrer...
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Um comentário:

  1. O ser humano tem uma incrível obsessão pela vida eterna.Muitas vezes ignorando os malefícios desta busca interminável.
    O Conto também trata das lendas e contos que ouvimos quando criança e como isso é capaz de moldar nosso caráter enquanto caminhamos pela vida.
    Parabéns Franz,mais uma vez consegue fazer o leitor sentir o drama do personagem de ir definhando aos poucos sem nunca morrer.

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