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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Conto: Mais uma dose. (Parte 2 de 7)





Capítulo II

Depois que os pedaços do bilhete já estavam tomando seu rumo aleatório pelo mundo e Diogo ter esfregado o rosto com tamanha força que em alguns pontos estavam formados pequenas áreas de vermelhidão, passou a massagear quase ritualisticamente as suas têmporas com as pontas dos dedos indicadores e médios. Sua cabeça pesava muito, como se cada tentativa de assimilar as anomalias tornasse mais difícil mantê-la levantada. Seus cotovelos ficaram apoiados nos joelhos, onde sua calça jeans estava mais desgastada.
Um ônibus vinha do lado esquerdo da rua, lentamente foi desacelerando até parar em frente ao ponto. A porta traseira estava abrindo e uma mulher que possuía uma pele que tremia a cada movimento, tamanha a sua quantidade de gordura no corpo, estava saindo reclamando sozinha acerca do calor que estava fazendo. As palavras ofegantes dessa mulher, que o fez imaginar uma versão obesa de Hulk Hogan, puxaram sua atenção para o ônibus e um pouco desajeitado levantou-se, correu até a entrada do coletivo, pois este era um dos ônibus que poderia pegar para o seu destino, e bateu na porta para chamar a atenção do motorista. A porta foi aberta e cumprimentando o motorista com um simples e sem muito ânimo “Oi” foi entrando no ônibus, enquanto ele já retomava sua marcha pela selva de pedras. Com um rápido olhar constatou que só havia mais cinco passageiros, ainda bem já que assim haveria mais espaço entre ele e qualquer outra pessoa. Retirou o cartão eletrônico do seu bolso direito da calça e o entregou à cobradora que depois de algumas tentativas voltou-se para ele e disse:
O cartão não tem crédito – falou em tom de deboche.
Não tem crédito? Como? Eu coloquei crédito ontem – será que colocou mesmo? Agora sua memória parecia vacilar como se alguém tivesse passado uma borracha nesse exato instante no dia de ontem.
Não sei como senhor, mas aqui tá mostrando que não há crédito – o tom de deboche era claríssimo agora. Pelo visto ser um pé no saco era o passatempo favorito dessa mulher que, aliás, tinha um bigode, fato que gerou asco em Diogo.
Depois de pensar um pouco sobre as possíveis saídas para esse pequeno problema disse:
Será que poderia ficar aqui na frente mesmo? Vou descer daqui há oito pontos – o tom de voz era extremamente paciente, todavia na verdade estava com muita raiva do desprezo dessa mulher que parecia ver no jovem à sua frente um marginal qualquer.
Tudo bem, mas só dessa vez – ao terminar de falar virou seu rosto para a parte de trás do ônibus.
Muito obrigado – ‘sua vaca’ completou mentalmente.
Decidiu ficar numa cadeira perto da janela. Como não havia trazido seus fones de ouvido para escutar música no caminho para a livraria optou pela distração mais simples do mundo das pessoas que costumam utilizar os transportes coletivos, olhar pelas janelas. A rua lhe parecia um filme sendo rodado em alta velocidade. Por um breve espaço de tempo Diogo ficou de olhos fechados devido ao pouco sono que vinha persistindo em sua vida durante este mês, quando começou a ficar mais desperto teve mais uma surpresa ao visualizar a rua. O que enxergava agora era um céu escuro como piche no qual, mesmo sem nuvem alguma, raios surgiam causando clarões que lhe gelavam a espinha e inspiravam unicamente pensamentos sobre morte. O ar cheirava à carne decomposta e absorver aquilo ao fazia sentir um gosto muito estranho, essa não era a palavra certa, a palavra certa era angustiante. O ar parecia dotado do sabor de todos os fetos abortados, todos os amores destruídos, cada suicídio cometido, cada ser humano assassinado, cada animal morto por um capricho cruel de algum lunático em inicio de carreira. Nossa, parecia que isto era alguma história do Poe e ele fosse o protagonista. Depois de sentir o ar e perceber o céu olhou para a direção das construções e viu um cenário de guerra, provavelmente depois da queda de uma bomba poderosa. Havia carros abandonados por toda a parte, alguns capotados e outros reduzidos a carcaças totalmente retorcidas. Os prédios, casas e pontos comerciais estavam todos cobertos por fuligem e possuíam buracos em suas faixadas. A pista estava com várias rachaduras. O mais estranho ainda era o fato de não ver pessoas. Com uma varredura feita pelos seus olhos viu que o ônibus era a única coisa nova e intacta nesse quadro pintado por algum sádico pintor. Agora que estava concentrado no local em que estava notou que o veículo estava parado, então com uma pequena força de vontade levantou-se e não viu ali também qualquer outra pessoa.
Com um esforço ainda maior de sua força de vontade, que agora brincava de cabo de guerra com as suas pernas, começou a avançar centímetro por centímetro até a porta de saída que estava fechada. Para ter certeza de que nenhum perigo o espreitava do lado de fora sondou o espaço exterior mais uma vez pelas janelas. Se havia algum perigo ainda não estava por perto ou era astuto o suficiente para se ocultar, aguardar sua presa parar para um descanso ou se alimentar e então ‘Zaz’ o ataque rápido e as presas no pescoço do incauto animal.
Quando colocou os pés, que usavam all stars, em contato com o asfalto viu a fachada da livraria à sua frente. Afinal havia outra coisa nesta ópera dedicada à morte, decadência e aos vermes que consomem a carne de todos que tem suas pálpebras fechadas por mãos de qualquer outra pessoa, seja algum que nutria amor ou ódio pelo aglomerado de carne que agora esfria e endurece. Considerando sua atual situação no esquema das coisas o mais lógico era ir ao porto-seguro que estava gritando, com a sua própria voz como se ele fosse um daqueles mestres em ventriloquismo. ‘venha, entre, tome um café, compre um livro, talvez até você consiga esquecer a insanidade que está flertando com você, fugir do bicho-papão embaixo de sua cama’. O pedido da voz foi atendido, porém antes de entrar, viu na placa de madeira que ficava acima da porta o nome ‘Livraria...’ o resto não dava para ser lido, as letras estavam embaçadas, na verdade pareciam estar brotando neste exato momento. Parecia até que tudo estava sendo construído agora, o mundo estava nascendo lentamente como se fosse fruto de uma mente distante dele, não somente distante, mas literalmente de outro mundo. Com uma proximidade maior da placa conseguiu ler ‘Livraria virá-página’ com uma pequena frase abaixo ‘Livros baratos é o nosso trato’. Sim, livros baratos eram o sedativo de que precisava nessa louca narração que estava sendo escrito ao seu redor!
A iluminação da livraria funcionava perfeitamente, indiferente às ruínas na vizinhança e a falta de pessoas para comprar ou matar algumas horas folheando algum livro ou até mesmo uma revista. As cadeiras de madeira, sem dúvida alguma para dar uma atmosfera mais aconchegante e clássica ao espaço, estavam em seus lugares habituais, juntas às mesas. O lugar tinha cerca de trinta metros de comprimento e quinze de largura, os dons matemáticos nunca foi o forte de Diogo. O lugar era organizado deveras metodicamente, várias mesas e cada mesa com quatro cadeiras, um tapete persa na entrada, numa área, pouco depois do tapete do lado direito, tinha um balcão singelo que era onde as pessoas poderiam pedir um café, qualquer tipo dessa bebida tão frequentemente associada ao hábito da leitura, ou talvez um pequeno lanche, o individuo que abriu esta livraria deve ter pensado ‘Se vou oferecer alimento para a alma das pessoas que por aqui transitarem, então devo oferecer igualmente um café para que eles possam deglutir melhor as palavras e também conceder à preços camaradas sustento para os seus corpos’, ao lado de cada mesa ficava uma lixeira, as estantes com os livros ficavam junto às paredes, elas eram organizado por sessões, gêneros, e cada sessão era disposta em ordem alfabética. O balcão para pagamentos de livros ficava no fundo. Enfim, era um verdadeiro paraíso para os admiradores da arte de criar mundos, universos, deuses, sonhos etc. Diogo estava perdido em seus pensamentos, observando onde estava, um lugar que parecia dotado de magia ainda mais agora, quando teve a impressão de que alguém tinha entrado também e estava caminhando para perto dele, mas ao dar um giro de 180º graus com o corpo soube que ninguém além dele tinha adentrado. Estava caminhando para o balcão dos fundos quando começou a ouvir sussurros, um som que se assemelhava à várias pessoas falando ao mesmo tempo num tom baixíssimo, tentou determinar de onde estava vindo, talvez fosse algum sistema de som que existisse na livraria, mas pelo que lembrava ai não havia sistema de som, mas tão pouco havia uma cidade em ruínas da última vez que resolveu sair do seu apartamento, então percebeu de onde vinha o burburinho, isso era um problema dos grandes, pois as vozes vinham dos livros de todas as estantes!


Leia a parte 1 de "Mais uma dose"
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