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domingo, 29 de janeiro de 2012

Resenha: O desfiladeiro do medo - Clive Barker




Autora: Priscilla Rubia

Só quando deixam para trás as sombras ávidas demais do Desfiladeiro e voltam ao fulgor dos cartazes de Sunset Boulevard, é que enxugam as palmas das mãos grudentas de suor e se perguntam por que, em um local tão inofensivo, puderam ter sentido tanto medo.

A história começa com Zeffer, empresário de uma atriz famosa, Katya Lupi, em uma fortaleza na Romênia.
A Romênia é a cidade natal de Katya e eles estão ali para uma visita, lembranças dos velhos – mas não bons – tempos. A Fortaleza é morada da Ordem de São Teodoro e no momento Zeffer está acompanhando Frei Sandru que lhe mostra o local. A Ordem não está nos bons tempos e o Frei tenta vender algo a Zeffer, lhe mostrando tudo na Fortaleza, com a esperança de que ele compre alguma coisa.
De início, Zeffer parece não se interessar por nada, até que chegam a uma sala entulhada de móveis e tapeçarias, porém o que interessa Zeffer são os azulejos que a cercam. São todos pintados profissionalmente e mostram uma imagem, uma história. Toda a sala é coberta por eles, as paredes, chão e teto.
Frei Sandru se mostra relutante no início em vender os azulejos a Zeffer, de acordo com ele, foram encomendados pela própria Lilith, a mulher do demônio. Zeffer, porém está encantado, hipnotizado pela obra de arte, que ganha o nome de A Caçada, pois existem homens em cavalos seguidos por cachorros sob um sol eclipsado, tudo isso em um cenário grotesco, onde existem falos em todo lugar, mulheres sendo estupradas, animais que parecem ter saído direto do inferno. Tudo em uma riqueza enorme de detalhes, que dá uma forte sensação de realidade.
Zeffer vence e compra os azulejos que são levados como presente para Katya, para sua casa em Los Angeles.
Somos então levados mais à frente – alguns bons anos à frente – e conhecemos Todd Pickett. Todd é ator, um super astro de Hollywood, bonitão, musculoso, com um sorriso maravilhoso. Bom, ele era tudo isso. Agora a idade está chegando e ele começa a sentir o peso. Não é mais um super astro, seu tempo passou e outros astros bonitões estão surgindo. Ele, porém não quer dar o seu lugar a eles. Tenta desesperadamente voltar ao topo. Tem uma idéia de filme e quer muito fazê-lo, mas não consegue. Os chefões de Hollywood não vêem mais Todd como uma máquina de fazer dinheiro e grande sucesso.
Conversa com Eppstadt, diretor da Paramount, e esse sugere que Todd faça cirurgia plástica. Todd em um primeiro momento não aceita a idéia, mas ao lembrar-se de seus tempos de glamour, procura, o que dizem ser, o melhor cirurgião de Los Angeles.
Só que a cirurgia dá errado...
Todd sofre uma reação alérgica e tem a pele da face queimada, deixando-a com um vermelhão feio, algo que pode ser curado, mas o rosto do ator nunca iria ser o mesmo.
Ele não quer de maneira alguma que a imprensa e posteriormente, o público, fiquem sabendo da terrível tragédia que está o seu rosto. Ele procura um lugar calmo e isolado para se recuperar. Maxine, sua empresária, encontra um lugar próximo a um desfiladeiro, uma casa enorme, bem decorada com o terreno além da vista.
Todd se dirige rapidamente para o local, desconhecendo o fato de que ele antigamente recebia o nome de Coldheart Canyon, nome dado em referência a sua antiga dona, Katya, que era uma mulher completamente fria.
Mal sabe ele que no porão da casa, há uma sala especialmente construída, cercada de azulejos que ganhou o nome de Terra do Demônio.
Não sabe que ali, bem no jardim, em meio ao matagal extenso, vivem criaturas nunca antes encontradas.
E que na casa próxima, a casa de hóspedes, vive Katya Lupi, tão bonita e atraente como sempre foi e ainda fria e temida.

O livro pode assustar de início pelo tamanho – 700 páginas – porém a leitura é rápida e desenvolve muito bem.
Algumas cenas são bem fortes e detalhadas, como as das orgias que acontecem no decorrer do livro e das atrocidades vivenciadas na Terra do Demônio. Seres híbridos, espíritos e demônios juntos em uma só massa de carne, onde o objetivo é obter o máximo prazer.
Uma das coisas ruins no livro é a edição, que parece corrida, com algumas pequenas trocas de letras, há também uma tradução desleixada deixando frases soltas no ar.

As passagens onde há sexo são muito comuns, pois Katya é nada mais nada menos do que uma grande puta – ela mesmo reconhece – que é capaz de fazer tudo, absolutamente tudo para atingir o clímax. É o tipo de mulher que tem as fantasias nunca ditas ou imaginadas e que faz os homens tremerem e ficarem completamente excitados por ela.
 
A profundidade que Barker dá aos personagens é incrível. Você passa a gostar deles e em seguida odiá-los e alguns o contrário.
Ele mostra com clareza como é o mundo da fama, por trás das mansões e vestidos caros, um mundo egoísta, frio, cruel, onde o mais importante é estar sempre belo e no topo. São pessoas que não dão a mínima para o que acontece ao seu redor e aquelas que não estão em seu círculo de amizade – leia-se aquelas que não tem fama – são meramente lixos.
Muitas das vezes me impressionei pela falta de caráter de muitos personagens, pelas atitudes egoístas que nos fazem pensar até onde a fama e o dinheiro influenciam na moral de cada um.
Prepare-se mentalmente para ler um terror nojento, excitante e cruel quando tiver O Desfiladeiro do Medo em mãos.
Prepare-se para entrar na Terra do Demônio onde nunca há garantia de volta.

Ficha Técnica:
Editora: Bertrand Brasil
Autor: Clive Barker
Origem: Estrangeira
Título original: Coldheart Canyon
Ano: 2002
Número de páginas: 700


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8 comentários:

  1. Tenho curiosidade em ler esse livro. Nunca li nada do Barker. Faz tempo que não leio nada de terror intenso, os livros costumam me decepcionar...

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  2. Esse é um livro intenso e tenso. Caso queira começar dos primórdios, leia a série "Livros de sangue"... fantástica. Boa leitura.

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  3. Clive Barker é um verdadeiro horror visceral. A maneira como ele brinca em suas histórias com a carne, os sentidos de seus personagens, é estupenda! O sexo e o horror nele estão numa simbiose perfeita, os excessos é o que torna tudo ainda mais fascinante/repulsivo. E até o próprio mal nele estimula a líbido e não o medo! Sério! O próprio Todd demonstra isso em alguns momentos. Parabéns pela resenha Priscila!

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  4. Essa é a característica de Barker mais chocante: a manipulação da carne. Nâo é à toa que Hellraiser tornou-se um grande sucesso.

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  5. Parabéns pela resenha, adorei. Se queria ler esse livro, agora eu quero mais ainda.
    Beijos,
    Felipe
    http://ahoradolivro.blogspot.com/

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  6. Gostaria de ler estorias de confrontos clássicos como robocop versus hellraiser e Batman versus hellraiser.seria legal demais.

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