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domingo, 22 de janeiro de 2012

Os caminhos do sertão de João Guimarães Rosa




Seria preciso ser um  inventor de palavras, como foi  João Guimarães Rosa, para  cobrir minimamente as qualificações que merece Grande Sertão: Veredas. Obra-prima da literatura, fundamental para a compreensão de nossa identidade, empreendimento artístico monumental, infuência para tantos escritores, tratado universal sobre o homem. São muitas as sentenças que poderiam ser elencadas para ressaltar esse romance atemporal, um dos mais importantes do século XX. Foi essa relevância que no início de 2011 motivou a Editora Nova Fronteira e a Livraria Saraiva a realizarem um grande projeto em conjunto: uma edição especial que trouxesse outra dimensão da obra por meio da divulgação de um material nunca publicado. Assim, surgiu a caixa Os Caminhos do Sertão de João Guimarães Rosa.
O ponto de partida foi o entusiasmo em  colocar em  livro pela primeira vez o importante texto A Boiada, até então restrito aos arquivos do IEB-USP. A Boiada é um documento fundamental para entender não só a construção das obras de Guimarães, mas também, de maneira geral, o esforço que precede uma grande obra literária, o seu fazer, o trabalho árduo do escritor.

A BOIADA: POR DENTRO DO SERTÃO
Em maio de 1952, João Guimarães Rosa juntou-se à comitiva de Manoel Nardy, que inspirou o famoso personagem Manuelzão, e  fez uma  travessia pelo ser tão mineiro. Mais do que o reencontro com sua terra natal, havia um nítido  interesse do autor em cartografar esse espaço e aprender mais sobre a cultura de boiadeiros e sertanejos. A leitura das duas  cadernetas  escritas  nessa viagem, as quais chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2, dão a medida desse interesse. Tanto que mais tarde as anotações foram aproveitadas especialmente na elaboração das novelas de Corpo de Baile.
O conteúdo das cadernetas é fragmentário e muito detalhado, um composto de frases, palavras, cenas, paisagens, desafios, lundus, quadras, cantigas, além de histórias e comentários a respeito do cotidiano dos homens com quem o escritor conviveu nesse período.
A partir desses fragmentos, é possível recompor o  percurso  de  Guimarães  pelo  ser tão  e  por  sua literatura, pois o itinerário revelado nas anotações, apenas aparentemente sem sistematização, revela a olhos mais atentos interseções com os caminhos trilhados pelos jagunços de Grande Sertão: Veredas.

A  caixa Os Caminhos do Sertão de João Guimarães Rosa, com tiragem numerada e  limitada de 10 mil exemplares, é produto de extenso trabalho editorial da equipe da Nova Fronteira. Valoriza-a um novo projeto gráfico e a série de belas ilustrações que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha produziu exclusivamente para a edição. A  caixa  é  composta  dos  seguintes livros: Grande Sertão: Veredas – Edição exclusiva,  tendo por capa a primeira página do  fac-símile da obra, em que Guimarães define o título, riscando de próprio punho a sua primeira proposição datilografada: Veredas Mortas. A edição é acompanhada, ainda,  por  um texto explicitando  o  trabalho  fonético da escrita rosiana e como se estabelece o Acordo ortográfico em João Guimarães Rosa. O livro também apresenta algumas capas nacionais e internacionais do romance que ganhou o mundo.

A Boiada – O fac-símile, todo impresso em cores, o original datilografado de Guimarães registrando a viagem pelo ser tão. Nas margens das páginas, em canetas de cores diferentes, ele indica: Corpo de Baile, Miguilim, Grande Sertão, Batalha... Um verdadeiro registro genealógico e raro da construção da obra do autor. O volume ainda conta  com a  contribuição de Sandra Vasconcelos, professora de literatura brasileira do IEB-USP e de Mônica Meyer, professora e bióloga da UFMG. 
Livro de Depoimentos – Com texto  de  apresentação  da  Nova Fronteira  e  da  Saraiva,  traz  depoimentos  inéditos  em  livro  de nomes  como Antonio Candido e Haroldo de Campos sobre o Grande Sertão: Veredas.

UM LIVRO NO MEIO DO REDEMOINHO
Por que Guimarães Rosa? Por que a experiência de sua leitura é tão fundamental  e  particular ainda hoje? Muitos dizem que ler Grande Sertão: Veredas é empresa difícil.  Nem tanto.  Uma vez em seu  universo  está  aber ta  outra compreensão sobre a vida, ampla e aguda, e todas as recompensas se dão nessa travessia.
Estamos falando de um livro que possibilita múltiplas leituras, que aborda, com riqueza e invenção, o drama do homem e sua aventura no mundo.  A paisagem agreste brasileira, o ser tão, é, por tanto, o universo todo, o mistério. História de amor e amizade, ambígua luta entre o bem e o mal, a vida sempre entrecortada por caminhos e descaminhos – veredas.
(DANIEL LOUZADA)

JOÃO GUIMARÃES ROSA nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908. Consagrado pela inovação que trouxe para a literatura brasileira, é um dos escritores mais originais e inventivos de toda a nossa história. Formou-se em medicina e exerceu a profissão até 1934, quando ingressou na carreira diplomática. Seu primeiro livro, Magma, uma reunião de poemas, que por muito tempo permaneceu inédito, conquistou o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Num movimento que prescreve sempre uma “travessia”, do primeiro livro de poesias Guimarães lança-se, a partir de então, numa prosa vigorosa, mas sem sombra de dúvida altamente poética. Sua estreia, para o público, deu-se com o volume de contos Sagarana, em 1946. Dez anos depois publica o romance Grande Sertão: Veredas, um marco na história da literatura contemporânea. Também em 1956 publicou originalmente os dois volumes de novelas intitulados Corpo de baile, a que se seguiram: Primeiras estórias (1962) e Tutameia (1967), além de dois livros póstumos: Estas estórias e Ave, palavra, ambos em 1969. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963 e empossado apenas em 1967, falecendo três dias depois.
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2 comentários:

  1. Tenho que começar a ler literatura clássica brasileira...

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  2. Esta coleção especial do Guimarães Rosa está em alguns lugares por 69 pratas. Imperdível não só pelo preço, como também pela qualidade.

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