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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A invenção da paranoia




Umberto Eco mostra sua versão romanceada para a criação dos Protocolos dos Sábios de Sião


Em um romance, Umberto Eco traça a gênese do texto antissemita que influenciou o nazismo e o Hamas

Autoria: Nelson Ascher

Nada é o que parece, e todos sabem que até países aparentemente democráticos são de fato governados não por seus representantes eleitos, mas pelos verdadeiros donos do poder, que manipulam as finanças e a opinião pública por meio dos bancos e dos meios de comunicação. Trata-se de uma casta secreta e todo-poderosa que se reúne periodicamente para submeter a maioria e decidir os rumos do planeta. Essa é uma visão de mundo que, difundida à esquerda e à direita, não nasceu do nada. Tem origem e genealogia. Os suspeitos de integrar a casta em questão podem ser os membros de uma classe social, de um ou vários ramos profissionais (banqueiros e donos de jornal são hoje os favoritos), de um grupo nacional, regional, étnico, religioso. No último século e meio, ninguém foi tão insistentemente acusado quanto os judeus. E a peça-chave dessa acusação é um livrinho produzido pela polícia secreta da Rússia czarista e publicado no início do século XX: Os Protocolos dos Sábios de Sião, texto composto das supostas minutas de uma reunião na qual líderes judeus de toda parte traçam um plano comum de dominação global. O local dessa reunião é o cemitério judeu da capital checa, Praga, que dá título ao novo romance do italiano Umberto Eco, de 79 anos. A gestação dos Protocolos constitui o fio narrativo central de O Cemitério de Praga (tradução de Joana Angélica d´Avila Melo; Record; 480 páginas; 49,90 reais).
Eco faz questão de declarar que a maioria dos personagens e fatos com que trabalha são reais. Sua principal criação ficcional é o protagonista, um falsário natural de Turim chamado Simone Simonini, cujos diários autobiográficos, datados de 1897, recontam sua vida, desde a infância marcada por um pai revolucionário empenhado na unificação italiana até a velhice de gourmet na França. O personagem passa por eventos históricos como a Comuna de Paris e convive com personalidades como Sigmund Freud e o escritor Alexandre Dumas. A capacidade de forjar documentos de todo tipo o aproxima dos serviços secretos de diversas nações européias, bem como de militantes e conspiradores variados – os quais ele alternadamente auxiliará e trairá. E a tudo isso subjaz sua mentalidade paranóica e delirante, em parte herdada de um avô que via na Revolução Francesa a mão de conspiradores demoníacos, e em outra parte derivada de sua leitura apaixonada de autores românticos como Eugène Sue e o próprio Dumas.
 
Foi Sue que, ao imaginar em um de seus folhetins uma reunião conspiratória de jesuítas, criou o cenário que seria adaptado para outros objetivos pelo escritor Maurice Joly num livro que atacava Napoleão III – e o livro de Joly, por seu turno, serviria de base para a redação dos Protocolos. A farsa foi exposta pelo jornal inglês The Times já em 1921, quando Protocolos se espalhava epidemicamente pela Europa e pelos Estados Unidos (com 
o apoio ativo do industrial Henry Ford), servindo inclusive ao emergente movimento nazista. No entanto, para os que querem acreditar numa conspiração judaica internacional, nenhuma prova racional bastaria para invalidar os Protocolos. O livro é hoje um best-seller em países islâmicos, e a carta de fundação do grupo terrorista Hamas o cita como fonte cuja autoridade só é menor que a do Corão.

O Cemitério de Praga não se limita, claro, apenas à gênese dos Protocolos, tampouco é um tratado ou uma tese. É, antes, um romance criativo e habilmente estruturado, no qual Eco combina sua paixão antiga pelos folhetins românticos com a capacidade (refinada desde O Nome da Rosa) de escrever de acordo com estilos de outros tempos. E essa habilidade serve, afinal, para ressuscitar uma realidade histórica que, em nada alheia à nossa, contribui para desmascarar uma perigosa e destrutiva visão de mundo.

Esta resenha foi publicada originalmente na revista Veja, edição nº 2241, de 2 de novembro de 2011.
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4 comentários:

  1. Fiquei interessada pelo livro. A escrita do Eco é bem dificil (pelo menos achei no O Nome da Rosa), mas não é o suficiente pra me afastar de um enredo que parece bem interessante.

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  2. Estou lendo este livro e, garanto, a leitura não está tão difícil. A trama é interessante e está, até o ponto em que li, interessante. Assim que finalizar a leitura, passarei minha opinião final.

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  3. O Brasil é um grande exemplo de país em que o povo ainda tem a ilusão de que verdadeiramente elege os seus governantes - okay, nós realmente votamos etc, mas até que ponto esse voto representa uma real vontade das pessoas? Até que ponto as esmolas do governo e os jornais influenciam nisso mascarando dados sociais? - A linha entre paranoia e realidade é tênue. Fiquei muito interessado nesse livro, assim que puder comprarei.

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  4. Brother, não há garantias quanto ao sorteio da mega-sena, não há nada capaz de garantir a segurança nas votações, principalmente enquanto a tecnologia puder ser manipulada, além de existir sempre a manipulação em busca de favorecimentos. O livro mostra uma parte dessa realidade triste, onde o benefício de alguns traz o malefício de milhares.
    E assim caminha a humanidade...

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