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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Conto: A experiência




Autora: Priscilla Rubia

 O martelo desceu mais uma vez.
         Voltou a chorar. Estava preso e não podia se mexer, mas pelo menos ainda podia chorar.
         Mais uma vez sentiu o martelo.
  Onde estava? – perguntou-se mais uma vez. Era um galpão? Um quarto? Estava escuro, não podia ver.
         Sentiu a pancada na cabeça de novo e de novo.
         Gritou. Como das outras vezes nada aconteceu. Respirou fundo e sentiu um odor. Um cheiro de coisa podre. De onde vinha esse cheiro? Por um segundo teve certeza de que o cheiro era dele mesmo.
         Sentiu as lágrimas descendo pelo rosto e em seguida mais uma pancada do martelo em sua cabeça.
         Estava no inferno, não estava? Não poderia pensar em outra explicação. Onde mais ficaria preso, sentado sem se mexer e tudo o que podia sentir era a dor, angústia e desespero? Só não podia entender porque estava no inferno. Não se lembrava de um motivo para isso. Tinha sido um bom menino, não tinha? Obedecia a mãe, bem, na maioria das vezes, mas isso era normal, não era? Às vezes mentia também, mas ora, todos mentem. Lembrou-se do dia que empurrou um amigo no lago. Só queria lhe pregar uma peça. Não sabia que o amigo não podia nadar. Graças a Deus que alguns adultos estavam por perto e salvaram o menino. Tomou uma bela surra do pai naquele dia, mas isso era normal também, não era? Não sabia.
         — Deus, por favor, me perdoe, não tive a intenção - mas tudo que obteve como resposta foi a pancada repetida em sua cabeça.
         Foi tomado pelo ódio. Se estava no inferno, onde estavam os malditos nazistas? Haviam o tirado de casa em uma noite e desde então não viu a mãe ou o pai. Se estava no inferno, eles teriam de estar ali. Eles mereciam, e como mereciam. Porém, estava sozinho. A sua única companhia era o barulho do martelo contra seu crânio.
         Gritou mais uma vez, só que não parou. Gritou o mais alto que pôde e depois disso gritou mais. Gritava o nome da mãe, do pai, gritava até os nazistas. Ver qualquer um seria bom. Ver uma luz qualquer vinda de uma abertura naquela negritude. Gritava enquanto chorava, enquanto o martelo ia e vinha, ia e vinha e nunca se cansava.
         Gritou e percebeu depois de um tempo que também estava rindo.
    Quando os nazistas deram-se por satisfeitos, pararam o equipamento e retiraram o menino da cadeira. Nos olhos da criança judaica, nada viram que representasse sanidade.
         Bom, o experimento estava completo.
         Ajoelharam o menino e o mataram.
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3 comentários:

  1. O conto desperta a indignação. Certamente que sim. Era repulsiva a maneira como os nazistas lidavam com aqueles que não fossem de sua raça (impuros).
    A maneira como o menino se questiona até ficar num estado de consciência insana e bastante palpável. Gostei bastante.

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  2. O conto é rápido e atinge sua meta: mostrar a crueldade e a frieza com que os carrascos lidavam com suas vítimas.
    Sem piedade.

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  3. Esse conto mostra que para atingir a insanidade não se necessita de elementos em demasia, um momento certo, uma atmosfera que combine...talvez algum outro elemento para intensificar tudo (nesse caso a batida incessante do martelo) e - puft - temos uma insanidade quentinha recém-saída do forno. Isso me lembrou outra HQ grandiosa do homem-morcego! "Piada Mortal"...acho que o Franz concordará comigo. Parabéns, Priscila!

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