{lang: 'en-US'}

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Conto: Homem deprimido





Autora: Priscilla Rubia

Imagino se houve tempestade igual a esta.
Ando em meio à multidão, com seus guarda-chuvas negros, capas de chuvas transparentes. Uma criança em uma capa de chuva de um azul claro pula em uma poça e a água espirra em minha calça. A mãe puxa o menino nervosa e por um segundo a criança olha nos meus olhos, porém é algo muito rápido. Ela logo segue de mão dada com a mãe.
Ninguém olha diretamente para mim. Ninguém realmente me vê.
Acho que o cachorro me vê. Ele está me seguindo há muito tempo.
Falando nisso, quanto tempo estou andando? O que eu procuro? A realidade? Um sentido para tudo?

Olho para baixo, para minhas roupas encharcadas. Os meus pulsos estão abertos e posso ver minhas veias de um azul meio roxo, porém é estranho. Não sinto dor. A dor foi embora e não sei se isso é uma coisa boa.
Então me recordo brutalmente do que procuro. Ela.
Estou diante do edifício onde ela mora. Subo as escadas me sentindo eufórico.
Bato. Ninguém atende, mas ouço o barulho do chuveiro, então entro no apartamento.

Caminho lentamente em direção ao banheiro, passando pelo quarto com roupas espalhadas, assim como embalagens de comidas que não são muito saudáveis. Fico preocupado.

Abro devagar a porta, esperando que ela me veja e sorria, mas ela não me vê. Não olha para mim. Ela está chorando.

Sinto-me devastado com aquela cena. Ela, nua, embaixo do chuveiro quente, que no momento exala um vapor dançando sobre as nossas cabeças. Ela, com a cabeça na parede, as lágrimas se confundindo com a água do banho.

Aproximo-me para que ela possa me ver, para que se acalme e eu possa dizer que está tudo bem.
Mas há algo sobre a pia que me faz estacar. Uma foto, uma foto de nós dois. Está um tanto amassada e manchada, como se tivesse sido deixada nas mãos de uma criança.
Recordo então que não posso me aproximar, que ela não pode me ver.

Então escrevo algumas palavras no espelho. No vapor que continua a sair da água quente. Escrevo querendo que minhas palavras passem a mensagem de que ora, o que está feito, está feito. Siga em frente. Há muito que ainda deve ser feito. Espero profundamente que ela entenda e não chore mais por mim.
Saio do apartamento e desço as escadas. O cachorro me aguarda.
Sinto uma dor no peito tão forte, tão real. Então afinal, ainda posso sentir dor.

Sento no passeio, ao lado de uma caçamba de lixo e choro. Choro em meio às pessoas que passam sem olhar para mim. O cachorro está ao meu lado e a chuva dá a impressão de que ele também chora.

Sinto-me arrependido. Pensei que não sentiria isso, mas sinto. Mas na hora pareceu tão certo. A única coisa que me libertaria do homem fraco que me tornei. Tão fraco... tão derrotado.
O cachorro me observa e percebo que somos iguais, não passo de um cachorro.

Em meio à chuva, em meio as pessoas, enquanto choro e o animal chora ao meu lado, repito as palavras que escrevi no espelho:

— Por favor, me perdoe.

Baseado em Low Man's Lyric - Metallica
←  Anterior Proxima  → Página inicial

4 comentários:

  1. Poxa, Priscila...você conseguiu me impactar em tão poucas palavras. Um conto tão curto, mas que parece pesar toneladas com toda a angústia que carrega! Nossa! Eu resolvi ler escutando a música do Metallica e caramba me senti bem no clima do post e mentiria se dissesse que no fim não me senti igualmente angustiado e com uma sensação de estar perdido. Belíssimo conto, meus parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Gostei muito. Textos que envolvem o outro lado da vida são sempre muito interessantes. Parabéns Priscila!!

    ResponderExcluir
  3. São raras palavras tão viscerais de uma boca tão feminina... adoro o Metallica tb!
    Parabéns pelas letras!
    abraço!

    ResponderExcluir
  4. É muito legal ler e sentir o "impacto" das palavras.
    A inspiração para escrever não poderia ser melhor: Mettalica.

    ResponderExcluir