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sábado, 31 de dezembro de 2011

Conto: A juíza






Lábios frios, qual o motivo que tens para tocardes os meus?
Sois vós os caminhos por onde passam palavras duras, tão cortantes quanto o fio de uma espada, que me atingem sem levar em conta os resultados.
É justamente de vós que tirei os mais intensos momentos de prazer e, em oposição, o mais puro pesar.
Falastes em amor como nunca fora antes dito. Havia verdade em tais sons... o que fiz para que mudasses tanto?
Distante é o tempo em que duas almas se conheceram. Quis o destino que assim fosse, sem considerar as prováveis conseqüências.
Tu eras jovem, impetuosa, mas com um amor contido em teu corpo, que poucos conseguem manter aprisionado. Conheci-te casada, com uma carreira promissora; eu, ao contrário, era um pobre, com pouco estudo e pouco a oferecer-lhe.
Esse mesmo pouco, tu aceitaste. Dissestes que juntos tínhamos como nos ajudar mutuamente. Minha mente foi aberta por ti e meu coração lacrado a todos, exceto vós.
Em nosso leito adúltero, juramos amor e fidelidade eternos. Unimos nossos corpos e almas e fizemos um pacto, onde o silêncio do nosso amor seria brevemente rompido quando tua separação fosse concretizada.
Entretanto, o capricho do destino é maior que nossas esperanças.
Acusaram-me injustamente de matar. Um complô onde eu sou a verdadeira vítima. Não pude defender-me, pois tu eras meu álibi. Estávamos juntos no momento em que o crime ocorreu, amando-nos sem nada saber e sem que de nós soubessem.
Preso, fiquei à mercê de meus captores. Tentaram forçar-me a confessar o que não fiz. Nada obtiveram.
Meses passaram-se, e estou diante de ti. Nossa promessa permanece.
Sei tudo o que tens a perder e sei que nada possuo para suprir. Nosso amor não pode ser revelado ou tu terás tua própria crucificação. As conseqüências são tão devastadoras que a vejo tremer diante do inevitável.
Todos querem justiça. Provas foram forjadas e não posso quebrar meu voto para contigo. Finalmente, o momento chega para que meu sofrimento tenha seu término decretado.
Hoje, diante de vós, vejo-a movimentar-se de forma lenta. Os jurados dão seu veredicto e tu o aceitas. De seus lábios os sons formam a palavra que determina o declínio de nosso amor. Ou será a prova definitiva de que ele realmente é forte o suficiente para ultrapassar a morte? Seu olhar toca o meu e percebo a dor que sentes, infinitamente maior que a minha. Meu corpo irá, mas é tua alma que ficará despedaçada. Tu me declaras culpado; culpado por amar-te.

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8 comentários:

  1. Poxa, romantismo e pessimismo mesclados assim são tão prazerosos. Me lembrou Baudelaire, apesar de que li só um livro dele. Um texto curto e de leitura muito boa!

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  2. Grato pelo comentário e, principalmente, pela comparação com Baudelaire, amigão. Sinto-me honrado...

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  3. Muito bom o conto Franz, seu estilo me agrada muito. Por esse e outros motivos que aguardo ansiosa pelo livro *-*

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  4. Farei de tudo para não decepcionar vocês, meus grandes amigos.
    Por falar em livro, Priscilla, quando você fará o seu?

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  5. Não sei, dei uma parada nele esses dias. Sabe qdo vc ta achando q tá uma porcaria? Então...

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  6. Então revise, reinicie e não desista jamais. Potencial não lhe falta, acredite...

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  7. Sim, uma hora ou outra eu animo e volto a escrever =)

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  8. Anime-se e não se esqueça da proposta de uma parceria para um novo livro. Aguardarei resposta...

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